Curso Bnei Noach parte 25

O PROJETO NOAÍSMO INFO APRESENTA

 

MINI CURSO GRATUITO DE INTRODUÇÃO AO TEMA DE BNEI NOACH

 

Idealizado por Projeto Noaísmo Info
Seleção, Organização, Edição: Proj. Noaismo Info

(Veja as palavras do próprio Rav Shimshon Bisker, de Israel, o Rabino Consultor do Projeto Noaísmo Info, sobre o trabalho do Proj. Noaismo Info, e sobre a menção de outros rabinos no Curso Bnei Noach, em:
ABERTURA DO CURSO SOBRE BNEI NOACH)

 

BNEI NOACH: VIGÉSIMA QUINTA PARTE

Por Rav Jonathan Sacks
Traduzido do espanhol e do inglês por Projeto Noaísmo Info

 

DENTRO DO CURSO BNEI NOACH UMA MENSAGEM ESPECIAL DO RAV JONATHAN SACKS PARA TODOS OS JUDEUS, MAS TAMBÉM PARA TODOS OS NÃO-JUDEUS

O PODER DO EXEMPLO

 

Até a história de Avrahám (Abraão) a Torá se ocupou da humanidade como um todo. Adám e Chavá (Adão e Eva), Káin e Hével (Caim e Abel) eram arquétipos humanos. Os primeiros representam as tensões entre marido e esposa; os últimos representam a rivalidade entre irmãos. Ambas histórias tratam sobre indivíduos e ambas terminam de forma trágica: os primeiros perdem o paraíso, os segundos terminam com derramamento de sangue, fratricídio e morte.

Na continuação da Torá, há outro par de histórias (o Dilúvio e a construção da Torre de Babel), desta vez sobre a sociedade em geral. Cada uma trata sobre a tensão entre a liberdade e a ordem. O Dilúvio fala de um mundo onde a liberdade (a violência, a anarquia, “cada um fazendo o que é certo aos seus próprios olhos”) destrói a ordem. Babel fala de um mundo onde a ordem (a imposição imperialista de uma única língua sobre os povos conquistados) destrói a liberdade.

 

[A TORÁ, A PALAVRA ORIGINAL DE D’US, DIFERENTE DOS OUTROS LIVROS “SAGRADOS” DAS RELIGIÕES HUMANAS, COMEÇA COM UMA MENSAGEM UNIVERSAL E ETERNA]

 

Estas quatro narrativas falam da condição humana. Sua mensagem é universal e eterna, como corresponde a um livro sobre D’US, Que é universal e eterno. D’US, como aparece nos primeiros onze capítulos do Gênesis, é O D’US Que criou o universo, Que fez toda a humanidade à SUA imagem, Que abençoou os primeiros seres humanos e Que, despois do Dilúvio, fez um pacto com toda a humanidade [o pacto do arco-celeste — ou Pacto do Código Noaítico da Torá —, que consiste no cumprimento de sete mandamentos universais básicos]. O D’US do universo é O D’US universal.

Por que então toda a história muda em Gênesis 12? Daqui em diante já não se trata da humanidade como um todo mas de um único homem, Avrahám, uma mulher, Saráh, e seus filhos, que na época do livro do Êxodo se tornaram um povo grande e significativo, mas ainda assim não mais que uma nação entre muitas.

 

[O D’US DE ISRAEL NÃO É APENAS DE ISRAEL, ELE É O MESMO D’US CRIADOR DE TODAS AS PESSOAS]

 

O que acontece aqui? Será que D’US perdeu o interesse no resto do mundo? Sem dúvida, não é esse o caso. No final de Gênesis, Iossêf (José) diz a seus irmãos: “Vós pensastes sobre mim mal, e D’US o intentou para o bem, para fazer, como neste dia, a fim de fazer viver muita gente” (Gênesis 50:20). Algumas traduções trazem: “a fim de fazer viver uma grande nação”. Pode ser que por “uma grande nação” alguns entendam se tratar apenas das vidas da própria família de Iossêf (é assim que o Targum Ionatán a entende). Mas o sentido simples da frase am rav, “uma grande nação” ou “muita gente”, alude ao Egito. Apenas depois do Êxodo os israelitas foram chamados de am, um povo. Iossêf está dizendo-lhes que D’US o enviou não apenas para salvar a sua família, mas também os egípcios.

Também encontramos este ponto no livro de Ioná (Jonas). Ioná é enviado a Nínive, a cidade assíria, para persuadir o povo a arrepender-se e evitar sua própria destruição. Em suas palavras finais, D’US diz ao profeta: “Acaso EU não haveria de ter compaixão da grande cidade de Nínive (que é obra de MINHAS mãos), na qual há mais de cento vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda (isto é: não foram ensinadas sobre a diferença da verdadeira religião divina e a idolatria)?” (Ioná 4:11, Malbim). D’US está preocupado não apenas com Israel mas também com os assírios, apesar do fato de que eles se tornariam inimigos de Israel e conquistariam o reino do norte de Israel.

Amós notoriamente disse que D’US não tirou apenas israelitas do Egito, mas também filisteus de Caftor e arameus de Kir (Amós 9:7). Isaías inclusive profetizou a respeito de uma época [exatamente a época do Rei judeu Mashíach] em que O PRÓPRIO D’US resgatará os egípcios da opressão tal como uma vez resgatou Israel e então os egípcios [(bem como os assírios) não-judeus] servirão D’US (Isaías 19:19-22). Portanto, não é que D’US tenha perdido o interesse na humanidade em geral. ELE sustenta todo o mundo. ELE mantém toda a vida. ELE está ENVOLVIDO na história de todas as nações. ELE é O D’US de todas as pessoas e povos. Então, por que limitar o foco da condição humana universal à história de uma família?

O filósofo Avishai Margalit em seu livro “A Ética da Memória”, fala sobre duas formas de pensar: “isto é (quer dizer/ou seja)” e “por exemplo (tendo como exemplo/tal como)”. A primeira fala de princípios gerais, a segunda de exemplos convincentes. Uma coisa é falar de princípios gerais de liderança, como por exemplo pensar no futuro, motivar, estabelecer metas claras etc. Outra coisa é contar a história de verdadeiros líderes, daqueles que tiveram êxito, que são modelos a seguir. Suas vidas, suas carreiras, seus exemplos, são o que ilustram os princípios gerais e como estes funcionam na prática.

Os princípios são importantes. Eles estabelecem os parâmetros. Eles definem o tema. Mas sem exemplos vívidos, os princípios costumam ser demasiado vagos e imprecisos para poder instruir e inspirar. Tente explicar os princípios gerais do impressionismo a alguém que não sabe nada de arte, sem mostrar-lhe um quadro impressionista. Esta pessoa pode entender as palavras que você usa, mas não significarão nada para ela até que você lhe mostre um exemplo.

Aparentemente esta é razão pela qual a Torá efetua esta mudança de foco da humanidade em geral para Avrahám em particular. A história da humanidade desde Adám a Nôach (Noé) nos diz que as pessoas naturalmente não vivem como D’US deseja que elas vivam. Comeram o fruto proibido e mataram o irmão. Por isso, depois do Dilúvio D’US SE tornou não apenas um CRIADOR mas também um MESTRE. ELE instrui a humanidade, e o faz de duas maneiras: “isto é” e “por exemplo”. ELE fixa as regras gerais (o pacto com Nôach [— que é chamado de justo mas não é um líder]), e logo escolhe um exemplo: Avrahám e sua família [que servirão de exemplos práticos para judeus e não-judeus do que é uma vida moral espiritual em sociedade]. Eles vão se tornar modelos a seguir, exemplos convincentes do que significa viver apegado e fiel à presença de D’US, não apenas para seu próprio benefício mas para o benefício de toda a humanidade.

 

[UM JUSTO QUE NÃO LIDERA NÃO É MORAL]

 

Embora Nôach seja um homem justo, ele não é um herói. [É verdade que] Nôach é o paradigma da obediência bíblica. Ele faz o que lhe é ordenado. [Mas] o que sua história nos diz é que a obediência não é suficiente. Este é um fenômeno extraordinário. É razoável supor que na vida de fé, a obediência é a maior virtude. Na Torá, não é. Na Torá, D’US não exige obediência cega. ELE busca de nós algo diferente e maior do que a obediência, ou seja, a responsabilidade. Intuitivamente, os sábios entenderam que o herói da fé não é Nôach, mas Avrahám.

Nôach não salva a humanidade. Ele salva apenas a si mesmo, sua família e os animais que ele leva consigo na arca. Retidão não é Liderança. Nôach é o caso clássico de alguém que é justo, mas que não é um líder. Ele era um bom homem que não tinha influência sobre seu ambiente. O que Nôach diz durante toda a sequência de eventos (desde o decreto do Dilúvio até a chuva começar a cair)? A resposta é: nada. Nôach não é relatado como dizendo uma única palavra. Se D’US fala e as pessoas não escutam (tivemos um exemplo disso apenas dois capítulos antes, [em] Gênesis 4:6-7), como podemos criticar Nôach por não falar quando todas as evidências sugerem que seus contemporâneos não o teriam ouvido de qualquer maneira?

Daí o forte princípio (do Talmud): quando coisas ruins estão acontecendo na sociedade, quando a corrupção, a violência e a injustiça prevalecem, é nosso dever protestar, mesmo que pareça provável que isso não tenha nenhum efeito. Por quê? Porque é o que exige a integridade moral. O silêncio pode ser considerado uma aceitação. E, além disso, nunca podemos ter certeza de que ninguém vai ouvir. A moralidade exige que ignoremos a probabilidade e nos concentremos na possibilidade. Talvez alguém tome conhecimento e mude seus hábitos — e esse “talvez” é suficiente. Esta idéia não surgiu de repente pela primeira vez no Talmud. Ela é afirmada explicitamente no livro de Ezequiel (2:3-5). D’US está dizendo ao Profeta para falar, independentemente de se as pessoas vão ouvir.
[Apesar de que, segundo o nosso Rav Shimshon Bisker, o rabino consultor do Projeto Noaísmo Info, Nôach tentou, sim, influenciar toda a humanidade para que ela deixasse seus maus caminhos e deste modo o decreto do Dilúvio fosse cancelado. O Rav Shimshon Bisker nos esclarece que Nôach teve de plantar as árvores das quais usaria (as madeiras) para construir a arca, e que a construção da arca levou muitos e muitos anos. Por que Hashém ordenou que Nôach construísse a arca, o que levaria tanto tempo assim? Para que as pessoas viessem lhe perguntar o que ele estava fazendo. E, de fato, as pessoas perguntavam, e Nôach lhes respondia: “Eu estou construindo uma arca. Hashém, O D’US CRIADOR, trará um dilúvio sobre o mundo inteiro.”]

[De toda forma, continuemos com o entendimento do Rav Jonathan Sacks, o de que] Nôach falhou no teste de responsabilidade coletiva. No final, seu fracasso em assumir a responsabilidade pelos outros também o diminui: na última cena, vemos que o homem de D’US se tornou um homem da terra, embriagado e desnudo, exposto em sua tenda. O homem que salvou sua família do Dilúvio agora é tão indigno que dois de seus filhos têm vergonha de olhar para ele. Esta é uma história de declínio. Não se pode ser o único sobrevivente e ainda assim sobreviver. “Que todo aquele que puder, salve a si mesmo” não é um princípio da Torá. Temos de fazer o que pudermos para salvar os outros, não apenas a nós mesmos.

A Torá estabelece um alto padrão para a vida moral. Não é suficiente ser justo se isso significa virar as costas para uma sociedade que é culpada de transgressões. Devemos tomar uma posição. Devemos protestar. Devemos registrar a discordância mesmo que a probabilidade de mudança de mentalidade seja pequena. Isso porque a vida moral é uma vida que compartilhamos com os outros. Somos, em certo sentido, responsáveis ​​pela sociedade da qual fazemos parte. Não basta ser bom. Devemos encorajar os outros a serem bons. Há momentos em que cada um de nós deve liderar. [E é por isso que, como dito acima, Avrahám e sua família serão usados pela Torá como referências do que significa ser exemplos convincentes.]

 

[O JUDEU DEVE INTERAGIR COM NÃO-JUDEUS E FALAR-LHES SOBRE D’US]

 

É por isso que cinco vezes no Livro de Gênesis se diz aos patriarcas: “Através de ti todas as famílias (ou todas as nações) da Terra serão abençoadas” (Gênesis 12:3, 18:18, 22:18, 26:4, 28:14). E os povos reconhecem isso. Em Gênesis, Malki-Tsédec diz sobre Avrahám: “Bendito seja Avram dO D’US ALTÍSSIMO, O CRIADOR dos céus e da Terra, e bendito seja O D’US ALTÍSSIMO, Que entregou os teus inimigos nas tuas mãos” (14:18-21). Avimélech, o rei de Guerar, diz de Avrahám: “D’US está contigo em tudo que fazes” (21:22). Os hititas dizem dele: “Tú és um príncipe de D’US entre nós” (23:6). Avrahám é reconhecido por seus contemporâneos como um homem de D’US, apesar deles não fazerem parte desse pacto específico.

O mesmo ocorre com Iossêf, o único membro da família de Avrahám cuja vida entre os gentios é descrita em detalhes no Livro de Gênesis. Iossêf constantemente lembra àqueles com quem ele interage sobre D’US. Quando a esposa de Potifar tenta seduzi-lo, ele diz: “Como poderia eu cometer esta grande maldade e pecar contra D’US?” (39:9). Aos chefes dos copeiros e dos padeiros cujos sonhos ele está prestes a interpretar, ele lhes diz: “As interpretações pertencem a D’US” (40:8). Quando o levam perante o Faraó para interpretar seus sonhos, Iossêf diz: “D’US é Que há de dar uma resposta de paz ao Faraó” (41:16). O próprio Faraó diz de Iossêf: “Será possível encontrar outro homem como como este, no qual o espírito de D’US esteja com ele? E o Faraó disse a Iossêf: Depois que D’US fez saber a ti tudo isto, não há [em todo o Egito] entendido nem sábio como tu!” (41:38-39).

 

[OS JUDEUS EXISTEM PARA O MUNDO, NÃO PARA SI MESMOS]

 

Os judeus não foram feitos judeus [por D’US] apenas para benefício dos próprios judeus. Os judeus devem ser um exemplo vivo, claro e persuasivo do que implica viver de acordo com a vontade de D’US, para que os outros também cheguem a reconhecer D’US e a servi-LO, cada não-judeu a sua própria maneira, mas todos [os não-judeus] dentro dos parâmetros dos princípios gerais do pacto com Nôach. As leis divinas de Nôach são o “isto é”. A história dos judeus é o “a título de exemplo”.

 

[OS NÃO-JUDEUS TAMBÉM DEVOTAM HASHÉM COMO NÃO-JUDEUS]

 

Os judeus não têm de sair convertendo o mundo todo para o judaísmo [e a própria Torá demonstra isso]. Há outras maneiras de servir D’US. É dito de Malki-Tsédec, um contemporâneo de Avrahám: “ele servia O D’US ALTÍSSIMO” [mesmo não sendo judeu] (Gênesis 14:18). O profeta judeu Malachí (Malaquias) disse que [porque os judeus foram exilados por todo o mundo, todas as nações puderam aprender O NOME de D’US, Hashém, e então] chegará o dia em que O NOME de D’US “será grande entre as nações desde o nascer do sol até pôr-se o sol” (1:11). Os profetas judeus prevêem um dia em que “D’US será REI sobre toda a Terra” (Zacarias 14:9) sem que todos se convertam ao judaísmo.

 

[NEM MESMO NA ERA MESSIÂNICA TODAS AS PESSOAS DO MUNDO SE CONVERTERÃO AO JUDAÍSMO]

 

[A Torá, os profetas e a Halachá (Lei Judaica)] não dizem que nós judeus temos de converter a humanidade [como já mostrado acima na citação de Isaías], mas sim que devemos inspirar a humanidade sendo modelos convincentes do que é viver com humildade e modéstia mas inabalavelmente perante a presença de D’US, como SEUS servos, SUAS testemunhas, SEUS embaixadores — e isto não para o nosso próprio bem, mas para o bem de toda a humanidade.

 

[O QUE É SER JUDEU]

 

Às vezes me parece que corremos o risco de esquecer isto. Para muitos judeus, somos simplesmente um grupo étnico entre muitos outros, Israel é uma nação entre tantas outras, e D’US é algo sobre o qual falamos apenas entre nós mesmos, se é que falamos. Há um documentário sobre uma comunidade judaica britânica. Uma jornalista não-judia, ao falar sobre o programa, comentou que para ela era estranho o fato de que os judeus nunca parecem falar sobre sua relação com D’US. Em vez disso, eles falam de seu relacionamento com outros judeus. Também essa é uma forma de esquecer quem somos e por quê.

Ser judeu é ser um embaixador de D’US no mundo [(Isaías 43:1, 10)], para ser uma bênção para o mundo, e isso necessariamente implica se envolver com o mundo, atuar de forma tal que inspire outros [para que], assim como Avrahám e Iossêf inspiraram seus contemporâneos[, todas as nações também aprendam que cada judeu é um servo de D’US e então cumpra-se a profecia: “Assim diz Hashém MESTRE das legiões: ‘Nesses [atuais] dias, dez pessoas de todas as línguas e nações segurarão a orla das vestes do judeu, dizendo: ‘Iremos (louvar D’us) contigo, porque (agora) sabemos que D’us está contigo”]. Este foi o desafio apresentado a Avrahám no começo da parashá de Lech Lechá (Gênesis 12-17). E segue sendo o nosso desafio hoje em dia.

 

(O curso prossegue na próxima parte.)

 

Por Rav Rabi Jonathan Sacks
Traduzido do espanhol e do inglês por Projeto Noaísmo Info: © Projeto Noaismo Info

© Rav Jonathan Sacks
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